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quarta-feira

O Problema do Destino e do Imponderável por Pietro Ubaldi - Parte V


     
     Se misturamos 50 objetos brancos e 50 pretos, perfeitamente iguais, a probabilidade teórica de extração, para cada cor, é de 50%. Se misturarmos 25 objetos brancos, 25 pretos, 25 amarelos e 25 verdes, a probabilidade de extração para cada um dos quatro tipos é de 25%. Se misturarmos 100 tipos de 100 tipos diferentes, teremos a probabilidade de 1% para cada um deles.
    Uma outra observação. O cálculo de probabilidades nos faz crer que o desenvolvimento do fenômeno no passado nos autoriza a crer que no futuro ele continue na mesma direção. O fato, porém, de a vida basear-se no equilíbrio, faz com que suceda justamente o contrário. Quanto maior número de vezes se houver verificado um fato, menor é a probabilidade, em virtude da lei de equilíbrio, de ele realizar-se novamente no futuro. Segundo sua universal lei de dualidade, a vida avança, não por acumulação de fatos, mas pela compensação de contrários. É justamente esta a verdadeira lei que rege os acontecimentos humanos e, por isso, também, a lei do nosso destino. Lei que vai da maior afirmação de Cristo no Discurso da Montanha, ao caso em que a sorte mais vezes nos tem sorrido e que dificilmente continua a sorrir-nos. Quanto mais o jogador ganhou, menos provável é que continue ganhando. Eis as leis da fortuna, que absolutamente não é cega. O homem comum imagina justamente o contrário. Quanto mais é feliz, mais se torna confiante e seguro de si mesmo, mais é levado a ousadias; e assim se encaminha para a derrota. Isso é precisamente a conseqüência de uma lei que visa restabelecer o equilíbrio e a que ele, inconscientemente, obedece. E assim se explica a queda, que nos parece incompreensível, de tantos grandes triunfadores do mundo.
    Não queremos pesquisar se, num estado relativamente originário, o ser humano tenha gozado de 100% de felicidade e se desse estado caiu a uma percentagem de 100% de dor, nem se a evolução atual consiste em recuperar esses 100% de ventura perdida. Hoje, todavia, podemos considerar, como relativo ponto de partida atual um estado de equilíbrio, em que, dentro da justiça, o destino de cada homem contenha 50 unidades negras, ou probabilidades desfavoráveis de dor. Poderia ser esta, no atual estado evolutivo, uma posição mediana de equilíbrio a que atualmente a Lei tende a reconduzir tudo, não obstante certas mudanças de direção. Trata-se de uma ordem que, embora violada, tende automática e providencialmente a reconstituir-se. Não desejamos aqui indagar se a Lei queira mais do que isso nem se tende a forçar-nos uma reconstituição dos 100% de felicidade. Por enquanto, apenas interessa observar que a transformação dessa percentagem e as deslocações de equilíbrio podem ser produzidas pelo livre comportamento do homem. Indispensável era, para que o homem pudesse evoluir, através da experiência própria, que lhe fosse concedida a liberdade de violar a própria ordem, de modo que ele pudesse conhecer as conseqüências dolorosas do erro e aprender a abster-se dele. Em resumo, a evolução, objetiva produzir um ser consciente do bem e do mal, um homem que sabe, e não um autômato, embora perfeito. Desse modo, aconteceu que, pela liberdade concedida por Deus, de abusar e errar para aprender, embora pagando duramente, o homem distanciou-se, mais ou menos, do equilíbrio da justiça divina, alterando a proporção basilar de equilíbrio, através da cadeia de suas várias existências sucessivas.
    Assumindo toda a responsabilidade e sujeito a perigos, o homem teve a liberdade de deslocar esses equilíbrios que tendem, no entanto, sempre, a reconstituir-se e aos quais a Lei tende sempre a reconduzi-lo. Sem atingirmos o caso limite da absorção completa, através da dor e da ascese, das 50 unidades negras, isto é, a felicidade absoluta em Deus ou, no caso contrário, o da absorção completa, através do abuso e da descida, das 50 unidades brancas; sem atingirmos, assim, a plenitude da vida voluntária e conscientemente conquistada ou, pelo contrário, a autodispersão no nada, atualmente na Terra encontramos deslocações parciais de equilíbrios que se fixam, embora transitoriamente, no campo de forças do próprio destino, e assim se transmitem, de vida em vida, à espera de correção. Formam-se, desse modo, os mais diferentes destinos, por nós mesmos construídos, com variados transtornos, no bem ou no mal, e que são o resultado último de todas as operações da vida, resultado que é levado, intacto, ao alto da página, ao iniciar-se um novo balanço, através de uma nova existência.
    Assim, ao nascer, cada um traz consigo o seu fardo, bem seu, porque feito por ele mesmo, e que será peso ou auxílio, conforme ele quis. O ponto final de uma vida é ponto de partida da que se lhe segue e as conclusões de uma se tornam premissas da outra. As convicções que possuímos, ao finalizar de uma existência, formam o instinto que nos impulsionará até os dias juvenis da existência seguinte, sem que tenhamos consciência disso. Assim, inconscientemente, mas de acordo com a justiça, estabelecemos cada nova vida sobre os fundamentos da existência anterior, colocados em plena consciência de maturidade. E seremos, assim, sempre o resultado de nós mesmos. Teremos, por isso, destinos felizes ou infelizes, de alegria ou de dor. Quem abusou, desrespeitando a Lei por excessos do prazer, pode achar-se, no futuro, com um destino de 25 probabilidades de alegria contra 75 de sofrimento e assim sucessivamente. Construímos nosso destino livre e vagarosamente, trazendo-o ao nosso lado com toda a nossa história nele escrita, à base de nossos créditos ou débitos. Ao mesmo tempo que, contínua e fatalmente o suportamos, podemos continuamente modificá-lo, como o desejarmos, no sentido do bem ou do mal, preparando o futuro.
    Eis como se pode analisar o imponderável e penetrar seu conteúdo desconhecido. Tudo isso é tão verdadeiro para o indivíduo como para as coletividades. O fenômeno, na realidade, não se nos apresenta tão reduzido, em sua mais simples expressão, facilitando observações. Na verdade, as forças componentes de um destino não têm só duas cores, mas muitas e diferentes. Não se trata apenas de alegria ou dor, embora esse seja o aspecto fundamental, mas, também, de variadíssimas qualidades adquiridas, das mais variadas especializações e disposições, conforme as atividades desenvolvidas e os trabalhos a cumprir.
    É um fato que os destinos, excetuando-se os tristes destinos das nulidades, se nos apresentam com direção própria, típicos, individuados por uma cor dominante, por uma tendência para determinado gênero de experiências. Por outras palavras, suas forças constitutivas são diferentemente coordenadas, formando um organismo com vontade própria, seguindo uma determinada direção. A realidade exterior, em que quase todos se baseiam, não é senão uma vestimenta, um cenário transitório, que só serve para corporificar o desenvolvimento dessas forças. É natural que quem tomar essa forma concreta por toda a realidade, há de reconhecer, mais tarde, achar-se em face de uma ilusão

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