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sexta-feira

As Buscas da Imortalidade - Parte Final



Outros “tratamentos milagrosos” contra o envelhecimento continuaram a surgir, florescer e desaparecer. Pessoas famosas e milhares de outras têm engrossado o rebanho que procura os “especialistas em rejuvenescimento”. Paul Niehans injetava as células de cordeiros nascituros em seus velhos pacientes. Ana Aslan, da Romênia, deixou o mundo perplexo durante décadas, com um tratamento que consistia na aplicação de injeções de Gerovital H3, uma forma da droga analgésica procaína. A geléia real, alimento especial que as abelhas dão à sua rainha, e substância há muito apregoada pelos adeptos de excentricidades alimentícias como remédio contra o envelhecimento, segundo os cientistas mais conceituados, não tem valor. Na verdade, o campo das pesquisas sobre o prolongamento da vida tem estado de tal modo atravancado de fracassados honestos e de charlatães sem escrúpulos, que por meio século alastrou-se um sentimento de desilusão. As soluções simples provaram não passar de fogos-fátuos. Entre os pesquisadores e o público em geral, sentia-se que a solução, possivelmente, não existia. 

Entretanto, logo depois da Segunda Guerra Mundial, houve um surto de atividade científica, nas ciências físicas e biológicas. Foram treinados exércitos de pesquisadores, que começaram a alargar as fronteiras dos conhecimentos em milhares de direções. O subsídio à pesquisa biomédica nos Estados Unidos passou explosivamente de 88 milhões de dólares, em 1947, a 2,3 bilhões de dólares, em 1967. A quantidade de dados acumulados resultou numa melhor compreensão dos processos vitais e numa percepção mais profunda dos mecanismos da doença. Com tal riqueza de novos conhecimentos e instrumentos sofisticados, os cientistas adquiriram um crescente sentimento de poder. A imprensa popular e a literatura científica das décadas de 50 e 70 ferviam com o fermentar de predições inebriantes. Ao crescer a confiança no potencial da ciência, houve um gradativo despertar de interesse pelas possibilidades de se alcançar a imortalidade. 

Em 1961, o Journal of lhe American Medical Association predisse que, em fins do século XX, seria comum uma expectativa de vida de cento e vinte anos. Daí a cinco anos, James Bonner, professor de biologia na Cal Tech, anunciava que os biológos estavam “prestes a encontrar um meio de eliminar a senilidade, propiciando, dessa forma, o aumento para duzentos anos da longevidade humana”. Vladímir Engelgardt, cientista soviético, prognosticou que pelo ano 2000 viveríamos trezentos anos.

Alguns foram ainda mais longe, mencionando a própria perspectiva da imortalidade. Ao meditar sobre o futuro da medicina, diz o médico e escritor Alan E. Nourse: “Os conhecimentos adquiridos em tal pesquisa nos darão as armas de que precisamos para lutar contar o derradeiro inimigo, a morte, em seu próprio terreno. Isso colocará a nosso alcance a imortalidade relativa: a extensão de uma vida humana útil e produtiva será medida em séculos, não em décadas. Será a idade de ouro da medicina, e talvez possamos alcançá-la”.
Em 1967, Augustus B. Kinzel, então presidente do Instituto Salk para Estudos Biológicos, declarou para o prestigioso jornal Science que deveríamos estar em condições de, em futuro previsível, abolir inteiramente a morte devida a causas naturais. “Eliminaremos por completo o problema do envelhecimento, de tal modo que os acidentes serão essencialmente a única causa da morte”.


Em diversos livros publicados durante esse período, surgem declarações otimistas sobre a conquista do envelhecimento e mesmo da morte. Em Tempo, células e envelhecimento (1961), Bernard Strehler, importante gerontólogo, pediu que fosse feito um esforço de âmbito nacional no sentido de superar a velhice. Em 1962, o notável Arthur C. Clarke, que escreve sobre ciência, predisse que conseguiríamos a imortalidade pelo ano 2100.

Em 1964, apareceu um livro que logo acendeu um acirrado debate e inspirou a formação de um movimento. Robert C. W. Ettinger, em A perspectiva da imortalidade, declara: “A maioria de nós, que ora respiramos, temos boa chance de vida física depois da morte (...) a imortalidade (no sentido de vida indefinidamente prolongada) é tecnicamente exeqüível, não só para nossos descendentes, mas para nós mesmos”. A receita de Ettinger para a imortalidade era simples – diziam alguns que era simplista – e fundava-se no poder e nas promessas da pesquisa científica. Propôs que, na morte de uma pessoa, não a enterrassem ou cremassem, como convencionalmente se faz; o corpo deveria ser preservado por congelamento até que futuramente a ciência médica tivesse encontrado um modo de curar o mal de que morrera. Poderia então ser descongelada e reanimada. Isso despertou a curiosidade do público, e as sociedades criogênicas ficaram atentas. Algumas almas aventureiras investiram fundos que lhes permitissem, a elas ou a seus entes queridos, serem congelados após a morte. 

Na comunidade científica, as propostas de Ettinger foram ignoradas ou desprezadas, com um escárnio causticante. O argumento básico que apresentavam era que, dadas as técnicas presentes e imediatamente previsíveis, o próprio processo do congelamento determina danos irreparáveis aos tecidos do corpo. Portanto, asseveravam eles, a pessoa congelada agora não poderia ter qualquer esperança razoável de um feliz renascimento. 

Nos meados e fim de 1960, uma onda de desilusão percorreu o país. O caso de amor com a ciência, que brotara durante a era pós-Sputnik, havia se tornado amargo à medida que o público se tornava cada vez mais consciente e alarmado com os problemas da poluição, da superpopulação e outros, aparentemente frutos da ciência e da tecnologia. As predições otimistas começaram a ceder lugar a advertências e profecias tenebrosas. Até os livros que relatavam detalhadamente as extraordinárias realizações da ciência e da tecnologia começaram a tomar de empréstimo as atitudes dos profetas do Juízo Final. Em A bomba-relógio biológica, publicado em 1968, Gordon Rattray Taylor percebia implicações sinistras em muitas tendências da pesquisa moderna. Admitia a possibilidade da imortalidade -talvez de um século ou mais, no futuro -, mas inclinava-se para um modo de ver semelhante ao de Sir George Pickering, quanto à extensão indefinida da vida: “Parece-me uma perspectiva aterrorizante...”

Paradoxalmente, começou a surgir, no meio dessa onda de desilusão, uma avalancha de livros sobre a morte e as perspectivas de vencê-la, filosófica e fisicamente. Em 1968, Robert W. Prehoda, em A juventude prolongada, discutiu a história e as tendências modernas da pesquisa sobre o envelhecimento e solicitou a promulgação do prolongamento da juventude como uma meta oficial nacional. 


Outros apelos no sentido de um maior esforço de âmbito nacional para vencer a morte -um programa do tipo daquele da viagem à Lua – formavam os principais temas de O Projeto Prometeu, de Gerald Feinberg, e de O imortalista, de Alan Harrington, ambos publicados em 1969. Harrington fez ressoar um veemente apelo às armas: “A morte é uma imposição à raça humana, e não é mais aceitável (...) mobilizem os cientistas, gastem o dinheiro, dêem caça à morte como a um bandido”. Todavia, depois de uma análise da situação atual das pesquisas sobre o envelhecimento, Harrington foi obrigado a concluir, embora a contragosto, que a imortalidade, embora possa um dia ser conseguida, não virá em tempo para a nossa geração. 

Na década de 1970, houve uma inundação de livros sobre a morte. Anteriormente um dos mais rigorosos tabus, a morte tornou-se recentemente uma espécie de obsessão, e discussões progressivamente francas sobre esse tema e suas ramificações invadem os meios de comunicação. Em inúmeros campi universitários surgiram cursos sobre a morte, que entraram em moda, e ganharam relevância. Muitos livros e artigos apresentaram análises históricas e psicológicas sobre a morte e sobre as atitudes por ela suscitadas, sempre acompanhadas das habituais exortações à aceitação “madura” da inevitabilidade de nossa condição mortal. Todavia, houve também tentativas no sentido da possibilidade de imortalidade. 

No livro de Desmond King-Hele, O fim do século XX, o autor declara que “a biologia (...) sugere que o envelhecimento não é inevitável; (...) um dia havemos de vencer o derradeiro inimigo”. Ele prediz que o mecanismo do envelhecimento será encontrado antes de 1990, e faz conjeturas sobre as prováveis conseqüências de tal descoberta, num mundo onde a imortalidade tenha se tornado um fato. 

O educador britânico Dean Juniper discutiu os possíveis meios de prolongar a vida, em seu livro publicado em 1973, O homem contra a mortalidade, e citou um dos argumentos mais irrecorríveis em favor da eventual exeqüibilidade da conquista da morte: “A luta será ganha pela excelente razão de que a brecha que separa o homem da imortalidade, no sentido físico, é finita e a capacidade de inovação do homem é infinita”.

Outro resumo das atitudes humanas em relação à morte, à imortalidade e aos progressos atuais destinados a vencer o envelhecimento, foi apresentado pelo jornalista Osborn Segerberg, em 1974, em O fator imortalidade. Ponderando as provas, suas conclusões foram basicamente positivas, e ele indicou uma notável progressão de otimismo no campo médico. Uma série de estudos de Delphi, por exemplo, trouxe à luz as opiniões de uma série de especialistas sobre as perspectivas para importantes manifestações científicas. Num estudo de 1964, patrocinado pela Rand Corporation, foi pedido aos especialistas que fizessem uma estimativa sobre a provável data em que se conseguiria o controle químico do envelhecimento. As respostas indicaram o período de 1992 a 2065, em média por volta do ano 2023. Estudo similar sobre o futuro da medicina, patrocinado por Smith, Kline e French, publicado em 1969, mostra o consenso dos especialistas ao indicar 1993 como o ano no qual se conseguirá o controle do envelhecimento e um significativo prolongamento da expectativa de vida. 

Em 1976, foram publicados dois livros sobre a possibilidade de prolongar a extensão da vida humana em séculos. Não morrer mais, escrito por Joel Kurtzman e Philip Gordon, cujo título era inspirador, embora o conteúdo não passasse de um pacato esboço dos progressos e das perspectivas da pesquisa sobre o envelhecimento. Os autores conjeturavam que as atuais investigações na área da biônica (desenvolvimento de órgãos artificiais), bioquímica e genética haviam de culminar, daqui a cerca de cinqüenta anos, numa extensão da expectativa de vida para oitocentos anos. Esse livro quase não foi notado. Outro livro de 1976, Prolongevidade, do escritor científico Albert Rosenfeld, era também um estudo atualizado das pesquisas sobre o envelhecimento. Causou uma sensação moderada, recebeu críticas de todos os jornais populares, e Rosenfeld participou de programas de rádio e televisão. A essência de suas conclusões, após visitas aos laboratórios gerontológicos do país inteiro, é que as pesquisas sobre envelhecimento finalmente prolongarão o tempo da vida humana a centenas de anos ou mais -isso dentro dos próximos cinqüenta anos, mais ou menos.
Como no caso de Harrington, em O imortalista, a perspectiva da virtual imortalidade, vista por esses autores, carecia de imediatismo. Poucas pessoas hoje vivas poderiam esperar compartilhá-la. Um livro publicado dois anos antes era realmente muito mais otimista. 


Em 1974, apareceu um livro intitulado Mantenha-se jovem e em forma. O autor era o dr. Edward E. Lamb, que escrevia nos jornais sindicais uma coluna sobre medicina, e anteriormente fora professor de medicina na Universidade de Baylor e diretor de ciências médicas na Escola de Medicina Aeroespacial. O livro praticamente passou despercebido. No ano seguinte mudaram-lhe o título para Prepare-se para a imortalidade, dando ênfase ao último capítulo, que começava assim: “Muitas pessoas hoje vivas terão a oportunidade de prolongar consideravelmente seu tempo de vida. Até a imortalidade parece hoje possível”. O livro do dr. Lamb oferece um programa para manter o corpo perfeitamente saudável, a fim de que o indivíduo possa aproveitar-se da iminente irrupção científica: “Quanto tempo será preciso antes que esses progressos evolutivos tenham lugar, depende do esforço despendido, embora eles possam ocorrer durante a vida de muitos de nós hoje vivos. Portanto, você tem chance de ser imortal. (. ..) Revelar os segredos finais da imortalidade seria levar indizíveis bênçãos ao homem, tornando-o senhor do próprio futuro e talvez do futuro de tudo quanto há no universo”..

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