Panacéia dos Amigos

quinta-feira

SONETO DA SEPARAÇÃO - VÍNICIUS DE MORAES



De repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma

E das bocas unidas fez-se a espuma

E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

 

De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a última chama

E da paixão fez-se o pressentimento

E do momento imóvel fez-se o drama.

 

De repente, não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente.

 

Fez-se do amigo próximo o distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente.


A ROSA DE HIROSHIMA - VÍNICIUS DE MORAES

 



Pensem nas crianças

Mudas telepáticas

Pensem nas meninas

Cegas inexatas

Pensem nas mulheres

Rotas alteradas

Pensem nas feridas

Como rosas cálidas

Mas oh não se esqueçam

Da rosa da rosa

Da rosa de Hiroxima

A rosa hereditária

A rosa radioativa

Estúpida e inválida.

A rosa com cirrose

A antirrosa atômica

Sem cor sem perfume

Sem rosa sem nada.


POEMA EM LINHA RETA - FERNANDO PESSOA

 


 

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

 

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo.

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado

[sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

 

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

 

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

 

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

 

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

 

Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que venho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

 

Álvaro de Campos"


VERSOS ÍNTIMOS - AUGUSTO DOS ANJOS

 



Vês! Ninguém assistiu ao formidável

Enterro de sua última quimera.

Somente a Ingratidão – esta pantera –

Foi tua companheira inseparável!

 

Acostuma-te à lama que te espera!

O homem, que, nesta terra miserável,

Mora, entre feras, sente inevitável

Necessidade de também ser fera.

 

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!

O beijo, amigo, é a véspera do escarro,

A mão que afaga é a mesma que apedreja.

 

Se alguém causa inda pena a tua chaga,

Apedreja essa mão vil que te afaga,

Escarra nessa boca que te beija!


sexta-feira

EU SOU UM PACOTE DE ESFORÇOS VÃOS AMARRADOS - THOREAU

 



Sou um embrulho de esforços vãos amarrados

Por um laço casual,

Balançando para um lado e para o outro, seus elos

Foram feitos tão frouxos e largos,

Acho,

Para o clima mais ameno.

 

Um buquê de violetas sem raízes,

E azedinhas misturadas,

Circundado por um fio de palha

Uma vez enrolado em seus brotos,

A lei

Pela qual estou fixado.

 

Um ramalhete que o Tempo arrancou

Daqueles belos campos Elísios,

Com ervas daninhas e caules quebrados, às pressas,

Faz a ralé debandar

Que desperdiça

O dia em que ele cede.

 

E aqui eu floresço por uma curta hora invisível,

Bebendo meus sucos,

Sem raiz na terra

Para manter meus galhos verdes,

Mas permaneço

Em uma xícara nua.

 

Alguns brotos tenros foram deixados em meu caule

Em imitação da vida,

Mas ah! As crianças não saberão,

Até que o tempo as tenha murchado,

A desgraça

Com a qual estão cheias.

 

Mas agora vejo que não fui colhido em vão,

E depois

colocado no vaso de vidro da vida enquanto pude sobreviver,

Mas por uma mão bondosa, trazido

Vivo

a um lugar estranho.

 

Esse estoque assim reduzido logo redimirá suas horas,

E por mais um ano,

Como Deus sabe, com ar mais livre,

Mais frutos e flores mais belas

Darão,

Enquanto eu aqui definho.


FUI PARA A FLORESTA - THOREAU

 


“Fui para a floresta porque desejava viver deliberadamente, encarar apenas os fatos essenciais da vida e ver se conseguiria aprender o que ela tinha a ensinar, e não, quando chegasse a hora da morte, descobrir que não tinha vivido.

Não desejava viver o que não era vida, viver é tão caro; nem desejava praticar a resignação, a menos que fosse absolutamente necessário. Queria viver profundamente e sugar toda a medula da vida, viver de forma tão robusta e espartana a ponto de destruir tudo o que não era vida, abrir uma ampla faixa e raspar rente, encurralar a vida e reduzi-la aos seus termos mais baixos e, se ela se mostrasse mesquinha, por que então descobrir toda a sua mesquinharia genuína e divulgá-la ao mundo?

Ou, se fosse sublime, conhecê-la por experiência e ser capaz de dar um relato verdadeiro dela na minha próxima excursão?”


AO JARDIM, O MUNDO - WALT WHITMAN

 


 

Ao jardim, o mundo, renovado em ascensão,

Parceiros potentes, filhas, filhos, em prelúdio,

O amor, a vida de seus corpos, ser e sentido,

Curioso, contemple aqui minha ressurreição, após o sono;

Os ciclos em revolução, em seu amplo movimento, aqui me trouxeram outra vez,

Amoroso, maduro – tudo belo para mim – tudo maravilhoso;

Meus membros, e o fogo trêmulo que folga neles, pelos mais maravilhosos motivos;

Existindo, eu perscruto e penetro ainda,

Contente com o presente – contente com o passado,

Ao meu lado, ou atrás de mim, Eva me seguindo,

Ou à frente, e eu a segui-la do mesmo jeito.