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terça-feira

Lendas Portuguesas: A Rainha Morta



Esta é a história de Inês de Castro- a rainha morta. O romance do infante Pedro (mais um membro de uma imensa dinastia de “Pedros” e “Manuéis” da realeza portuguesa), futuro rei de Portugal, com a aia Inês de Castro. Fruto de um amor proibido, com traços hollywoodianos de drama e poder, a narrativa se passam na corte portuguesa. Como todas as boas histórias são difíceis separar fatos de lendas, contudo se levarmos em conta o talento artístico da idade média e da imaginação popular; contudo há muito registros históricos que dão veracidade à lenda. 

A saga se passa nas primeiras décadas de 1300, mais precisamente no ano de 1320, ano de nascimento de Pedro, em Coimbra, que há época era a capital do reino. Com o destino traçado devido às grandes disputas na Península Ibérica, onde casamentos entre os nobres era a maneira mais comum de manutenção de terras e poder. Pedro estava prometido a Constança Manuel, sua prima, que pertencia à casa de Aragão, Leão e Castela. Pedro e Constança eram netos da venerada Santa Isabel de Castela, cujo corpo repousava em seu sono eterno no pátio do convento de Santa Clara, nas proximidades do castelo de Pedro. Jovem como era ele se revoltou com a submissão a que foi submetido, mas a contragosto, se casou com a prima. Esta lhe deu três filhos, mas não foi capaz de ter dele seu amor. Pois o amor, Pedro tinha da dama de companhia dela, a jovem Inês, que segundo consta era uma graciosa jovem e loira e elegante, que deram a ela o sugestivo apelido de “colo de graça”. Casos extraconjugais eram e ainda são comuns, e este romance não desagrada ninguém na corte – a exceção é claro era a pobre Constança-, que desesperada, convidou Inês a ser sua comadre, batizando um de seus filhos, na esperança que a familiaridade espiritual impossibilitasse o caso entre os compadres. Artimanha realizada em vão; como o escândalo continuava o rei Afonso lV mandou que Inês fosse levada à Albuquerque em Castela, mas ainda assim os amantes mantinham contato através de vasta correspondência apaixonada. 

O romance parecia que teria um final feliz, com a morte de Constança em 1345 devido às complicações de um parto (motivo comum que encerrava a vida de muitas jovens mulheres), pois viúvo e aos 24 anos, Pedro não tinha mais obrigações a cumprir por seu infortúnio; então trouxe Inês de volta a Coimbra, instalando a moça eu castelo nas proximidades do convento de Santa Clara, pois era fácil de avistá-lo da janela de seus quarto. Mas a felicidade aos poucos escasseava com a chegada da peste negra e com ela a superstição do povo, que achava que a doença era fruto da cólera de Deus para punir o povo devido ao adultério, e ainda mais pelo incestuoso (incestuoso devido aos laços do batismo, pois o fato de Pedro ter sido casado com uma parenta não vinha ao caso) romance do futuro rei. Mas apesar disto, os dois continuaram juntos. O escândalo irritava a todos, principalmente quando Pedro e Inês se encontravam em público na famosa (que ainda hoje é um cartão postal de Portugal) Fonte dos Amores. Mas o romance criou um forte laço de amizade entre Pedro e os dois irmãos de Inês, Fernando e Álvaro de Castro, ainda que a para Pedro a amizade selasse um aliança entre os três ainda mais que ambos tinham algumas rusgas com o rei de Castela, o reino vizinho. Politicamente, para Pedro, estes aliados não foram uma boa estratégia. Seu pai D. Afonso, que há tempos queria encontrar um meio de afastar Pedro definitivamente de Inês, ficou ainda mais enraivecido com a idéia de destronar o rei de Castela e coroar seu filho. Somando a isso, vem o fato que Castela há muito queria se separar de Portugal, e ainda pelo medo que o rei nutria pela suposta traição que seus netos ilegítimos poderiam atentar contra o legítimo herdeiro do trono, o filho de Pedro e Constança. Dom Afonso então conspira contra Inês, e decide por um fim definitivo na aventura amorosa do filho. E em 7 de janeiro de 1355, o rei manda seus três asseclas - Pedro Coelho, Diogo Lopes Pacheco e Álvaro Gonçalves- vão até Coimbra onde está Inês, e se aproveitando da ausência de Pedro – que havia saído para uma caçada, esporte comum da realeza- encontram- na sozinha, e num ato de extrema covardia degolam a moça indefesa e enterram seu corpo às pressas no convento de Santa Clara. Quando Pedro retorna, a dor lancinante que apodera de seu coração, fica louco de ódio e levanta um exército contra seu pai. E o confronto entre pai e filho só termina com a intervenção da rainha Beatriz, mãe e esposa deles, que combinou um tratado de paz, mas não afastou a espada que feriu de morte o coração inconsolável do filho (não era para menos, não é?). 

Parece que depois da guerrilha, os nunca mais se viram e dois anos mais tarde, em 1357, o rei Afonso lV morreu. Assentado no trono do pai, Pedro em seu primeiro ato foi mandar prender os traidores. Conseguiu trazer de Castela onde estavam refugiados. Pedro Coelho e Álvaro Gonçalves, pois Diogo Lopes Pacheco conseguiu fugir. E movido por uma curiosa vingança (Freud explica) condenou os dois à morte e ordena que o coração dos homens fosse extirpado: um pelo peito e outro através das costas. Mas aí que começa a bizarrice real (perdão do trocadilho, ainda mais se a história toda não fosse suficientemente bizarra). Com o trauma, Pedro parecia que nunca mais recuperou o juízo perfeito. Movido por uma mórbida obsessão, e pela maneira desesperada e irreal de se fazer justiça à mulher amada, o rei afira que se casou em segredo com Inês, fazendo dela assim rainha, portanto merecedora de todas as pompas e honras de sua soberania. Ela manda trazer seu corpo a Coimbra e o instala no mosteiro Real de Alcobaça, mausoléu dos monarcas portugueses. Relatam-se da viajem fúnebre que o corpo foi acompanhado de um cortejo constituído de cavaleiros montados em belos cavalos, acompanhados de muitas donzelas e membros do clero. Juntaram-se a eles mais de mil homens que seguiam a rainha trazendo nas mãos velas acesas em sinal de luto. Diz-se também que Pedro mandou que construíssem um mausoléu de lindas pedras brancas trabalhada sutilmente, com a tampa entalhada a cabeça coroada de Inês (estes entalhes são muitos comuns a lordes, santos, clero e a realeza e ainda hoje são vistos com suas riquezas de detalhes). Não satisfeito com o que lhe era possível fazer em honra e memória da amada, Pedro também teria colocado o corpo de Inês ao trono, coroando sua cabeça com a jóia de sua mãe, e obrigou a nobreza a beijar com reverências as mãos cadavéricas da rainha. O que fez com nascesse a célebre frase: “Agora é tarde, Inês é morta!”. Que indica: tarde demais, não há mais nada a se fazer. 

Pedro mandou também entalhar no túmulo real detalhes de sua história; e em janeiro de 1367 o triste rei morreu e foi enterrado próximo ao túmulo de Inês. Contrariando o costume de se enterrar cônjuges lado a lado, o corpo de Pedro foi posto em um esquife à frente de Inês e seus túmulos ficaram em posições frontais para que segundo a religiosidade da época, devia para que eles se abraçassem no dia da ressurreição. E nestes túmulos que ainda hoje estão expostos no convento de Santa Maria de Alcobaça, estão entalhados que os dois permaneceriam juntos “até o fim do mundo...”. Curiosamente, dos filhos do casal, descenderam a maioria parte da realeza européia e se constatou que entre os séculos XV e XVI, a maioria da nobreza tinha o sangue de Pedro e Inês. Com o avanço das colônias portuguesas, em especial o Brasil, estes sangues se espalharam por toda a população, não somente entre a nobreza, mas também entre os comuns, o que sem dúvida faz com que algum leitor certamente cumpra com a promessa da frase do túmulo dos amantes. .

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