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segunda-feira

O Problema do Destino e do Imponderável por Pietro Ubaldi - Parte III



       
     A Lei responde com a voz com que a chamamos e é tão rica que sabe responder a todas as vozes, de acordo com o mérito de cada qual. Então, é possível ao justo apelar, não mais para a força ou a astúcia, sistemas de luta por ele superados, mas para a divina justiça e desta receber uma resposta direta, isolada no seio de um mar de respostas diferentes; é possível receber um tratamento de bondade e de salvação, no seio de um cataclismo universal. E assim, o evoluído pode marchar com um destino todo seu, independente do de seus semelhantes, do da própria humanidade. Enquanto os outros, pelos seus métodos de luta, se destroem, alternativamente arrastados pelo turbilhão de força, presos pelo ódio recíproco à sua destruição, o evoluído, inocente das culpas do mundo, poderá seguir seu destino, totalmente seu, de alegria e de paz. As forças do imponderável terão formado em torno dele um invólucro protetor, uma defesa salvadora, que o torna invulnerável, porque inocente, em meio aos mais graves perigos que arrastam os outros. Deixemos aos juristas o estudo dos caminhos da justiça humana, que tem simplesmente escopos defensivos de uma classe dominante ou de toda a coletividade social. Ocupamo-nos, aqui, da justiça divina, que não é, como a humana, um produto da luta pela vida, mas, sim, um produto do universal princípio de ordem e equilíbrio que tudo governa.

    No que livremente quisemos no passado é que se encontra a origem do destino, que depois nos prende à alegria ou à dor. Está, assim, no que merecemos, a razão das adversidades que nos ferem. O homem, em lugar de reconhecer que errou, prefere lançar a culpa sobre os outros. Nosso intelecto, porém, tem necessidade de descobrir no princípio causal do universo as características de uma absoluta justiça e somente assim a encontra. Sentimos por instinto, e a voz da nossa consciência nos diz que é justo sofrermos as conseqüências somente do que pessoalmente merecemos por nossas próprias ações. Sentimos que se isso não fosse verdadeiro em um caso apenas, toda a ordem e o equilíbrio do universo seriam abalados. Temos, instintivamente, necessidade de crer nessa justiça substancial que está além da justiça formal e exterior da sociedade humana. É à essa mais profunda justiça interior que nosso espírito recorre, apelando para o supremo tribunal de Deus. Andamos buscando essa justiça nos acontecimentos humanos e ficamos desiludidos e insatisfeitos por não a acharmos. E a renunciamos, constrangidos. E, no entanto, ela existe, e existe sempre. De outro modo, desabaria o universo. A perfeição de Deus não tolera em si qualquer injustiça.

    É regra geral que, quando um problema nos parece insolúvel, isso se deve ao fato de havermos partido de premissas erradas; devemos substituí-las. Todos os problemas têm que ser solúveis. Quando num caso qualquer nos parece triunfar a injustiça, isso não pode provir senão de defeitos de observação. Costumamos observar apenas os poucos dias desta breve vida humana, mas, a justiça, dada a eternidade do espírito, não se pode realizar toda senão nessa eternidade. Diz-se que Deus não paga o sábado. Porque a justiça divina não tem pressa de pagar, desejaríamos admiti-la inexistente. Realmente, o nosso destino é um campo de forças em que se encontram traçadas todas as trajetórias das ações por nós iniciadas, e cada uma delas tem que atingir, até a meta, seu esgotamento. Toda a lógica inexorável do funcionamento orgânico do universo nos grita isso e não existe força ou ignorância que possa fazer calar esse grito. Estes problemas não se resolvem com a mesquinha preocupação apriorística de não se vestirem eles de uma ou outra teoria, própria desta ou daquela escola. A verdade não pode ter preconceitos. Se tememos encontrar o obstáculo do reincarnacionismo, iremos de encontro ao da injustiça de Deus, ou, então, concluiremos com a imperscrutabilidade do mistério, isto é, declararemos insolúvel o problema; e isso prova que nos enganamos em suas premissas. Se não quisermos, pois, concluir com a injustiça ou o mistério, isto é, falir nas conclusões, perdendo-nos no caos, deveremos mudar as premissas. Só assim resolveremos o problema do destino humano, da liberdade e do determinismo que nele se encerram, da responsabilidade e da justiça segundo o mérito. Só assim resolveremos tudo em harmonia com tudo; de outro modo, nada explicaremos. O exame do problema do destino levou-nos a observar um mundo de forças que escapam aos nossos habituais meios de observação, mundo das causas, mundo de que depende tudo o que sucede posteriormente no plano sensível dos efeitos. Procuremos agora compreender como funciona esse imponderável, que se assemelha a bastidores dos acontecimentos de nossa vida, de que tudo se deriva. Podemos, assim, ainda mais aprofundar os conceitos precedentes.

    O mundo moderno, apressado e céptico, não imagina a presença do imponderável em meio das coisas mais comuns da vida quotidiana. Quando nos preparamos para a realização de qualquer objetivo, existe, de um lado, uma nossa necessidade ou desejo, e de outro, um plano instintivo ou racional, que tende a atingir a satisfação. Que é que abrange esse plano diante do oceano de incógnitas que nos circunda? E essas incógnitas são forças presentes, reais e ativas, tanto que podem desviar, a cada momento, o desenvolvimento de nossos planos, interferir na série coordenada de nossos atos, neles introduzindo impulsos novos que, provenientes do desconhecido, são para nós imprevisíveis. Para poder compreender e definir o imponderável é preciso penetrar esse desconhecido. Esses desvios, que não conseguimos prever, porque seus elementos nos escapam e são mais fortes que nós, nos assediam a cada passo nos pequenos eventos individuais de cada dia como nos grandes acontecimentos da história, dando à nossa vida um contínuo tom de incerteza. 

De fato, nunca estamos verdadeiramente seguros, ao pormos em execução qualquer projeto, se acabaremos chegando aonde queremos, ou se, pelo contrário, atingiremos um ponto completamente diverso do que fixamos. Isso vimos na última guerra. O mesmo acontece em nossos problemas particulares. Freqüentemente, uma coisa desejada com sagacidade e constância, não consegue êxito, embora sabiamente preparada, ao passo que outras coisas que parecem, a princípio, apresentar-se com mínima probabilidade de êxito, às vezes, imprevistamente, o conseguem de modo completo. Que três quartos dos elementos do sucesso nos escapam, é um fato que todos sabem. Agitamo-nos, assim, às cegas, conservando em nosso poder apenas uma pequena parte dos elementos do triunfo e com tão poucas cartas na mão tentamos a vitória. Tentamos. Os demais, que representam essa incerteza, se lançam à ventura e agarram por acaso, desordenadamente, o que podem e o mais que podem. É evidente, contudo, que a solução do problema do sucesso não se encontra no uso louco e desordenado, embora prepotente e resoluto, daquela pequena parte de elementos em nosso poder e, sim, no conhecimento e, portanto, na inteligente direção dos elementos contidos nos outros três quartos que nos escapam.

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