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segunda-feira

Batman: A piada mortal


 

 Qual é a linha que separa a sanidade e a insanidade? Quão tênue ela é? Será que umas seqüências de eventos ruins acontecendo sistematicamente podem demolir nossa estrutura emocional e derrubar a casa? Será tão grande assim a distância que nos separa dos maiores insanos da humanidade?

É precisamente sobre este tema que a aclamada Batman: a piada mortal, escrita por Alan Moore e ilustrada por Brian Bolland (que criou talvez a mais icônica imagem do Coringa), com cores de John Higgins, trabalha. Vislumbrando a questão da loucura sob a ótica de um dos personagens mais insanos das histórias em quadrinhos: O Coringa.

O insano palhaço do crime que foi magistralmente escrito e dirigido por Nolan e brilhantemente interpretado por Ledger (Estou preparando um post sobre este filme) assombrou multidões pela sua crueldade insana e gerou questionamento dos que não lêem HQs se ele era mesmo daquela maneira retratada no filme. Sim, quando bem escrito ele é. Na verdade, como qualquer personagem de longa data, ele muda conforme as tendências, mas se buscarmos a essência do personagem sendo realistas, eu diria que o filme se aproxima do que ele realmente deve ser. E uma das HQs que deu os parâmetros para o personagem foi “A Piada Mortal”.


Como vimos antes, a obra de Moore parte da idéia de que para o Coringa um dia ruim é tudo o que é necessário para transformar a vida de uma pessoa. Não só isso, mas basta um dia desses para que uma pessoa completamente sã perca toda a sua sanidade e adentre os caminhos sem volta da loucura. Basta uma tragédia para que uma pessoa prefira o conforto da loucura ao tormento das lembranças daquele dia. Afinal, supostamente foi justamente um dia ruim que criou o insano assassino dos cabelos verdes.

Pouco ou nada se sabia sobre o passado do personagem o que tornou a obra de Alan Moore um referencial por criar uma origem, e conseqüentemente, uma dimensionalidade maior ao personagem. A partir daquele momento, o Coringa deixa de ser simplesmente o vilão maniqueísta para se tornar alguém comum levado a loucura por circunstâncias cruéis e dramáticas.

A piada mortal começa com uma visita de Batman ao Asilo Arkham, o sanatório para criminosos insanos de Gotham. O vigilante vai ao Asilo para visitar o Coringa, tentar conversar com o Palhaço do Crime e colocar um ponto final na longa história de ódio que existe entre esses dois homens. Para a surpresa do Homem Morcego, no entanto, o Coringa fugiu do Arkham e colocou outra pessoa em seu lugar. Quando descobre o ocorrido, Batman sai atrás do vilão.

Enquanto isso, no entanto, o Coringa já está colocando seu plano à prova. Ele quer mostrar ao Batman que até mesmo a mais sã das pessoas pode enlouquecer. Assim, decide fazer uma visita ao comissário Gordon. Quando a filha adotiva do comissário, Bárbara (ex-Batgirl, atual Oráculo) atende a porta, recebe um tiro que parte sua coluna. 


Enquanto os comparsas do Coringa espancam o policial, o Palhaço do Crime despe Bárbara e tira diversas fotos dela naquela situação, com a coluna partida e, provavelmente, sofrendo algum outro tipo de abuso por parte do criminoso(Este é quase um consenso entre os que leram embora seja apenas uma especulação).

 
Então, o Coringa leva Jim para um parque de diversões, onde tortura o comissário psicologicamente, mostrando-o as fotos de Bárbara. Seu objetivo é enlouquecê-lo, provando a todos, especialmente ao Batman, que não é preciso muito - apenas uma grande tragédia pessoal - para que uma pessoa perca sua sanidade. E que é apenas isso que separa o vilão de todas as pessoas. 


Enquanto providencia o pior para Jim Gordon, o palhaço assassino relembra o dia em que se transformou. A questão é o que acontecera com Gordon?

A piada mortal é uma é uma obra que faz cair paradigams dentro dos quadrinhos. Desaparece a antiga relação herói-vilão em que o herói é a representação do Bem e, o vilão, a do Mal. Um processo que se iniciou com a revolução de Stan Lee, Jack Kirby e companhia que na década de 60, manteve o maniqueísmo e a relação Bem x Mal mas retirou a “perfeição” dos heróis passando a ter problemas e conflitos internos comuns à qualquer pessoa. O vilão passa a ser o lado negro do herói, aquilo que pode acontecer se ele perde a batalha em sua guerra interna.


Afinal, qual a distância entre Batman e Coringa? Ele também teve um dia ruim e virou um morcego! O Coringa acredita que Batman é tão insano quanto ele, mas quer que o próprio cavaleiro das trevas aceite esta verdade aterradora! Esta questão também aconteceu em Asilo Arkham de Grant Morrison.
Vale dizer que além  do texto a qualidade da obra deve muito a mestre Gibbons que domina perfeitamente a arte da HQ em todos os seus caminhos com talento e estilo. As cores de John Higgins criam atmosferas e ressaltam as transições de “flashback” em toda a história e outras seqüências fazendo pulsar as violentas e fluir as mais calmas.

Em 1989, A piada mortal foi agraciada com os mais importantes prêmios da Indústria de Quadrinhos, o Will Eisner Awards (melhor escritor, desenhista e álbum gráfico) e o Harvey Award (melhor história, álbum gráfico, desenhista e colorista).

Agora, vejam só,  não é interessante parar para pensar que toda a comovente história relembrada pelo coringa em “Piada Mortal” pode não passar de uma alucinação da cabeça dele?

Insano? Justamente...

Uma obra imperdível e referencial. Não deixem de ler..

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